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história da LITERATURA de MATO GROSSO: século XX

2a. edição





HILDA MAGALHÃES

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Copyright 2017 Hilda Magalhães

(1a. edição, 2002 impresso)





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Sumário

EM BUSCA DA LITERATURA MATO-GROSSENSE

I. Existe literatura em Mato Grosso?

II. Por uma literatura mato-grossense

História/historiografia

Conceito de "literatura regional" e "literatura mato-grossense"

Mapeando a busca


ESTUDOS PRELIMINARES

I. A literatura mato-grossense na visão de Rubens de Mendonça e Lenine Póvoas

II. O teatro em Mato Grosso: séculos XVIII e XIX

III. A literatura nos dois primeiros decênios do Século XX

A poesia cristã e patriótica de Dom Aquino

Razão e sensualismo na literatura de José de Mesquita

A poesia satírica: Zé Capilé, Aprígio dos Anjos e Indalécio Proença

Amor e angústia na lírica de Arlinda Morbeck

Outros autores


O CLÁSSICO E O MODERNO: DÉCADAS DE 1930 E 1940

I. Introdução

II. O cantor dos ervais: Hélio Serejo

III. O teatro salesiano: Padre Raimundo Pombo da Cruz

IV. O romantismo temporão: Rubens de Mendonça e Tertuliano Amarilha

V. Descobrindo o Modernismo

O Grupo Pindorama e o Movimento Graça Aranha

As revistas O arauto da juvenília, Ganga e Sarã

Obras e representantes

Lobivar de Matos, um pré-moderno

Um poeta surrealista: Manoel de Barros

Um modernista bissexto: João Antônio Neto

Nas trilhas da vanguarda: Silva Freire

Outros autores


DIALOGANDO COM A ESTÉTICA DE 50 E 60

I- Introdução

II-Manoel Cavalcanti Proença: a linguagem mitopoética

III-Wlademir Dias Pino: o poema visual

IV-Ricardo Guilherme Dicke: metalinguagem e mito

V-Outros autores

NAS TRILHAS DA CONTEMPORANEIDADE: ANOS 70 A 90

I-Introdução

II-O erótico e o social: Marilza Ribeiro

III-Regionalismo e misticismo: Tereza Albués

IV-Poética e metalinguagem: Hilda Magalhães

V-O erudito e o popular: Pe. Antônio Pimentel

VI-Poética e engajamento: Dom Pedro Casaldáliga

VII-O teatro existencialista: Flávio Ferreira

VIII-A poesia de exceção: Aclyse de Mattos

IX- Entre cheiros e gostos: a poética de Lucinda Persona

X-Outros autores

CONCLUSÃO


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BIBLIOGRAFIA


Sobre a autora

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EM BUSCA DA LITERATURA MATO-GROSSENSE

I. Existe literatura em Mato Grosso?

Se avaliarmos a produção literária mato-grossense a partir da quantidade e da qualidade de pesquisas e trabalhos publicados sobre o tema, somos levados a concluir que inexiste literatura em Mato Grosso.

Em termos de historiografia literária, os dois trabalhos mais significativos que temos são História da literatura mato-grossense(1970), de Rubens de Mendonça, e História da cultura mato-grossense(1982), de Lenine Póvoas. O texto de Rubens de Mendonça é fruto da primeira tentativa de compilação da historiografia literária do Estado, sendo, por esse motivo, referência bibliográfica indispensável para todo estudioso da literatura local, tendo o seu lugar assegurado na historiografia literária mato-grossense. O seu mérito consiste em relacionar, com minuciosidade, um grande número de autores dos séculos XVIII e XIX, de difícil acesso, visto que viveram numa época em que não se publicavam livros na Província, o que torna a obra fonte de consulta obrigatória para os críticos literários posteriores. Entretanto o trabalho peca por não identificar as fontes da maioria das informações. Além disso, o texto demonstra fragilidade na análise das obras, bem como uma flagrante indecisão metodológica, em função da qual o enfoque crítico vacila entre o autor e a obra, privilegiando ora um, ora outro, acarretando prejuízos para a consistência do texto.

O livro História da cultura mato-grossense, por seu turno, ao assumir compromisso com outras formas de manifestações culturais, reduz bastante o seu alcance enquanto historiografia da literatura de Mato Grosso e pouco acrescenta ao primeiro.

Há que se destacar ainda, paralelos às obras historiográficas citadas, os livros Poetas bororos-antologia de poetas mato-grossenses (1940) e Poetas mato-grossenses (1958), ambos de Rubens de Mendonça, sem dúvida importantes para conhecermos a literatura mato-grossense, mormente a do início do século. Além desses títulos, temos os textos de Corsíndio Monteiro [1] sobre a obra de Dom Aquino e o livro A mais linda flor (1993), de Yasmim Nadaf, que tematiza a contribuição do Grêmio Júlia Lopes na literatura regional.

Procurando contribuir para o enriquecimento da bibliografia sobre o assunto, propomo-nos a analisar a natureza e a evolução da literatura mato-grossense no século XX, identificando seus nomes e suas obras mais representativas.

II- Por uma literatura mato-grossense

História/historiografia

Se formos verificar a práxis historiográfica brasileira, vamos observar uma enorme variedade de métodos utilizados pelos nossos historiadores, cada qual servindo obviamente a um objetivo específico e traduzindo uma teoria estética peculiar, que varia conforme as descobertas da Teoria Literária.

Essa variedade metodológica resulta em procedimentos críticos bastante distintos e variados, condicionando o “olhar” do historiador ora para os fatores intrínsecos da obra, ora para os extrínsecos, condicionadores do fazer literário (contexto histórico, social, etc), em busca da afirmação e da enfatização dos elementos que o teórico considera importantes na literatura.

A nós interessa compilar a história da literatura de Mato Grosso buscando enfatizar as características estruturais e conteudísticas que a legitimam enquanto diferença no cenário literário nacional. Para tanto, faz-se necessário delimitarmos o que entendemos por História. O nosso conceito de História vem de Giambattista Vico, pensador italiano que viveu em meados do séc. XVIII. Para o pensador, longe de ser progressista ou retilínea, a História obedece a um processo recorrente, nos termos de uma história ideal cíclica (VICO, 1986, p. 116 e 155). Esse processo histórico circular é medido não pelo tempo, mas pela percepção de mundo de cada época e a relação de cada povo com o Poder.

De acordo com Vico, esse ciclo histórico apresenta três estágios diferenciados: a 1ª idade, caracterizada por uma visão ingênua e mística do mundo; a 2ª idade, caracterizada por uma percepção menos ingênua e mais contestadora, concretizada na luta pela terra, e a 3ª idade, marcada pelo domínio da razão, traduzida em leis democráticas e num regime político participativo. Após a 3ª fase, não é mais possível haver progressividade e o ciclo se repete qualitativamente, ou seja, de forma diferenciada .

Como percebemos, a lei da recorrência viqueana trabalha com duas constantes: a multiplicidade e a variedade no tempo/espaço, de modo que tudo existe em todo tempo e lugar, mas de forma diferenciada. E ao adotarmos o conceito de História, de Vico, interessa-nos, mais do que a ideia de recorrência, a concepção de pluralidade das ações humanas no espaço/tempo, no intuito de registrar, nesse compêndio, não apenas as manifestações literárias predominantes em cada época, mas também o que ficou à margem, apreendendo, assim, a multiplicidade da produção literária nesse Estado.

Isso considerado, ao analisarmos a literatura de Mato Grosso, não estaremos interessados em achar um fio condutor que caracterize a produção literária rumo a uma situação literária ideal, mas sim a sua variedade no tempo e no espaço, enquanto manifestações de formas diferenciadas de percepção do universo, estética e culturalmente.

Conceito de “literatura regional” e “literatura mato-grossense”

Faz-se necessário, nessa oportunidade, esclarecermos o que entendemos por regional em literatura. Analisando a relação obra literária/regionalismo, José Nogueira de Moraes (1993, p.2) afirma que tempo e espaço são “simples elementos históricos para a valorização da arte literária”. Assim sendo, as denominações continental, nacional ou regional, embora contribuam no processo de compreensão do texto, “não pertencem à substância do artístico” (MORAES, 1993, p.2). Diante disso, as classificações regional, urbana, sertanistas ou atlântica são inadequadas e só servem enquanto recurso didático. Por sua natureza transnacional, continua José Nogueira de Moraes, a obra “foge às limitações do nativismo-não é de nenhum lugar, por seu valor, por sua beleza, pertence à Humanidade, a todos os tempos e a todos os lugares e será tanto maior quanto mais refletir o universal” (MORAES, 1993, p.2) .

Assim, quando nos referirmos a textos como sendo regionais, não estaremos reduzindo-os à categoria de simples documentos geográfico-culturais. Estaremos tão somente evidenciando um dos aspectos que a obra apresenta.

Para os fins desse trabalho, entendemos por literatura mato-grossense os textos escritos por autores que nasceram em Mato Grosso ou que nele residem (ou tenham residido), contribuindo para o enriquecimento da cultura do Estado. Por “Mato Grosso” entendemos o estado indiviso até a década de 70, após o que, levamos em conta apenas a unidade do norte, por entendermos que, embora apresentem, em princípio, aspectos semelhantes, a partir da divisão os dois estados tendem a acentuar suas diferenças culturais, apresentando ritmos e traços diferenciados de desenvolvimento.

Mapeando a busca

Em relação à estrutura do livro, atendendo a uma necessidade didática, considerando que esse compêndio se destina ao uso indistintivamente de alunos de 1º, 2º e 3º graus, a exposição ou mapeamento do panorama literário mato-grossense será feito cronologicamente. Essa metodologia nos dará a oportunidade de mapear com maior precisão o contexto histórico-cultural de cada década, possibilitando-nos acompanhar as transformações culturais do Estado e mapear a variedade da produção literária mato-grossense, evidenciando a sua importância, enquanto diferença, no contexto literário nacional.

No que respeita à análise das obras, esta obedecerá aos princípios da Crítica Estilística, que, entendida pelos seus seguidores como uma ciência-arte, não se contenta, segundo Carmelo Bonet , em sentenciar justificadamente ou limitar o exato valor poético da obra estudada a uma prévia escala de classificação dogmática. Do mesmo modo, a Crítica Estilística não se limita a "cumprir essa operação separadamente com alguns elementos estruturais que se repetem como em um padrão: caracteres, diálogo, ação, e assim por diante". Ela se caracteriza basicamente pelo exame do estilo do texto, entendendo por estilo "sua maneira, seus tiques, suas singularidades" (BONET, 1969, p. 173). Assim estaremos explorando os textos em nível estrutural e temático, buscando destacar as peculiaridades de cada autor e sua importância no panorama literário de Mato Grosso.

Para tanto, vamos desenvolver o nosso trabalho em 04 capítulos. No primeiro, faremos, a partir dos estudos de Rubens de Mendonça e Lenine Póvoas, uma rápida exposição do panorama da literatura mato-grossense. Mapearemos também o cenário literário do Estado nas duas primeiras décadas do século, com ênfase nos trabalhos de José de Mesquita, Dom Aquino, Indalécio Proença e Arlinda Morbeck, autores representativos de uma literatura que indicia, ainda que bastante influenciada pela estética do século passado, uma identidade própria.

No segundo capítulo, analisaremos as obras das décadas de 30 e 40, importantizando a entrada do Modernismo no Estado, sobretudo a contribuição de Lobivar de Matos, Manoel de Barros e outros colaboradores da revista Pindorama, bem como a contribuição das revistas Ganga e Sarã na implantação de uma estética experimental na região. Serão estudados nesta oportunidade, além das obras de Lobivar de Matos, Silva Freire, João Antônio Neto e Manoel de Barros, representantes de uma literatura caracterizada pelo diálogo com a estética moderna. Analisaremos também as obras de Rubens de Mendonça, Tertuliano Amarilha, Pe. Raimundo Pombo e Hélio Serejo, representantes do anacronismo que caracterizava a produção literária da época.

No terceiro capítulo, discorreremos sobre a literatura das décadas de 50 e 60, com ênfase nos textos de Wlademir Dias Pino, criador do Poema Processo, Ricardo Guilherme Dicke, Manoel Cavalcante Proença, representantes de uma literatura altamente comprometida com os problemas sociais brasileiros e com a estética de vanguarda dos anos 50 e 60.

No último capítulo mapearemos a produção literária dos anos 70 a 90, abordando a literatura produzida após a divisão do Estado, caracterizada pelo compromisso com a questão fundiária, o erotismo, a metalinguagem, o misticismo, o filosófico, o imaginário infanto-juvenil e a revitalização do teatro. Serão analisadas, nesse capítulo, dentre outras, as obras de Marilza Ribeiro, Tereza Albués, Hilda Gomes Dutra Magalhães, Pe. Antônio Pimentel, Dom Pedro Casaldáliga, Flávio Ferreira, Aclyse de Matos e Lucinda Nogueira Persona.



ESTUDOS PRELIMINARES

I. A literatura mato-grossense na visão de Rubens de Mendonça e Lenine Póvoas

Registra Rubens de Mendonça, em seu História da literatura mato-grossense (1970), que o primeiro documento escrito em língua portuguesa, em Cuiabá, foi uma ata, lavrada aos 08/04/17191, e o primeiro livro, Crônicas de Cuiabá , de autoria de Barbosa de Sá, que registra a crônica cuiabana desde a fundação de Cuiabá até a data de 1775 (MENDONÇA, 1970, p. 9). A seguir, temos o trabalho de Joaquim da Costa Siqueira, responsável pela crônica da Província, no período de 1776 a 1877.

Além desses dois, Rubens de Mendonça cita José Zeferino Monteiro de Mendonça, Felipe José Nogueira Coelho, Pe. João A. Cabral Camelo, Pe. José Manoel de Siqueira e Manoel Cardoso de Abreu (MENDONÇA, 1970, p. 9-15), como representantes do ciclo cronístico mato-grossense no Brasil colônia.

A partir do final do séc. XVIII e durante todo o séc. XIX, registra-se a presença de expedições científicas em Mato Grosso. Escreve Lenine Póvoas que, após a celebração do tratado de Santo Idelfonso, em 1777, responsável por profundas mudanças nos termos do Tratado de Madrid, os governos português e espanhol formaram expedições compostas de astrônomos e geógrafos para procederem à demarcação das fronteiras (PÓVOAS, 1982, p. 24).

A comissão designada para demarcar a fronteira Mato Grosso/Bolívia era composta por Ricardo Franco de Almeida Serra, Francisco José de Lacerda e Almeida e Antônio Pires da Silva Pontes. Como resultado de seu trabalho, Ricardo Serra deixou-nos as obras Extrato da descrição da capitania de Mato Grosso, Reflexos sobre a capitania de Mato Grosso, Navegação do Tapajós para o Pará e Diligência no rio Paraguai. Francisco de Lacerda e Almeida escreveu Diário de viagem pelas capitanias do Pará, Rio Negro, Mato Grosso, Cuiabá e São Paulo, nos anos de 1780 a 1790. Antônio Pires da Silva Pontes, deixou-nos, por sua vez, Diário de diligência e reconhecimento das cabeceiras dos rios Sarará, Guaporé, Tapajós e Jauru, Memórias físico - geográfico das lagoas Gaíva, Uberaba e Mandioré, Um diário de viagem no Rio Guaporé e Notícias do lago Xaraés.

Com a sucessão de Marquês de Pombal, o sucessor Murtinho de Melo e Castro enviou expedições científicas para estudarem as riquezas naturais do País (PÓVOAS, 1982, p. 25). Dentre os componentes dessas expedições, destacou-se Alexandre Rodrigues Ferreira, baiano naturalista, autor de Suplemento à memória dos rios de Mato Grosso, Enfermidades endêmicas da Capitania de Mato Grosso, Memórias sobre as febres da capitania de Mato Grosso e Catálogo da verdadeira posição dos lugares abaixo declarados pertencentes às capitanias do Pará e Mato Grosso. Além de Alexandre Ferreira, Póvoas cita ainda Luiz D'Alincourt, Augusto Leverger, Cônego José da Silva Guimarães, Joaquim Ferreira Moutinho, Bartolomé Bossi, Henrique de Beaurepaire Rohan, João Severino da Fonseca, Herbert H. Smith , Carlos Van Den Steinen, Paulo Ehrenreich, Pedro Vogel e João Barbosa Rodrigues, como principais expoentes desse período.

A literatura propriamente dita, segundo os apontamentos de Rubens de Mendonça (1958, p. 11), teve início com José Zeferino Monteiro de Mendonça, nascido em Lisboa, em 1740. Havendo escrito várias poesias, não nos deixou, contudo, nenhum livro publicado. A seguir encontramos o nome de Antônio Cláudio Soido, apontado por Rubens de Mendonça (1970, p. 31-32) e Lenine Póvoas como pré-romântico [2]. Antônio Soido (Capixaba, 1822 - 1889) publicou “O corsário” (tradução de Byron), Lembranças de Montevidéu, A menina oriental (poemeto), Para os pobres (tradução de Victor Hugo) e O batel”(poemeto). A Antônio C. Soido segue-se Antônio Augusto Ramiro de Carvalho, o primeiro poeta genuinamente mato-grossense (cuiabano, 1833-1891), definido por Rubens de Mendonça como um poeta humorístico, sem publicação (MENDONÇA, 1970, p. 33).

Rubens de Mendonça relaciona ainda como românticos Antônio Gonçalves de Carvalho, Amâncio Pulquério de França (pseudônimo “Palmiro”, bastante influenciado por Casimiro de Abreu), Manoel Ribeiro dos Santos Tocantins, (Cuiabá, 1852-1927, mais conhecido por haver fundado a Typografia Oficial do Estado do que pela sua produção literária) , José Tomás de Almeida Serra (Cuiabá, 1866-1889, considerado por Rubens de Mendonça o verdadeiro corifeu do Romantismo em Mato Grosso (MENDONÇA, 1970, p. 36), influenciado por Alfred Musset e Álvares de Azevedo), José T. A. Serra, Pedro Trouy, (Cáceres, 1872-1926), Frederico Augusto Prado de Oliveira pseudônimo de “Zé Capilé” (Cuiabá, 1874-1914), Antônio Tolentino de Almeida (Rosário Oeste, 1876-1839, autor de Ilusões doiradas, 1910; A índia Rosa, 1910; Retirada da laguna-poemeto, 1930 e Romeiros do ideal, 1937), Fábio Monteiro de Lima (Cuiabá, 1883-1946), Indalécio Leite Proença (Cuiabá, 1883-1939), Antônio Vieira de Almeida (Cuiabá, 1873-1916, autor do livro inédito Contos de outras eras), Isác Póvoas (Cuiabá, 1886- 1970 ), Amarílio Novais (Cuiabá, 1888-1963), Cesário Corrêa da Silva Prado (Cuiabá, 1891-1969) e Francisco Bianco Filho (Minas, 1901-1947, autor de Mirko, romance de costumes regionais,1920).

Sob a égide do Parnasianismo e influenciados por Olavo Bilac, Rubens de Mendonça relaciona, dentre outros, os seguintes autores: Otávio Cunha Cavalcanti (Pernambuco, 1884-1958, autor dos inéditos Folhas verdes no outono e Poema), Rosário Congro (São Paulo, 1884 - 1963, autor de Inaiá-poemeto, Sombras do acaso- verso, Colunas partidas, Outras ruínas e Últimos caminhos), Arnaldo Serra (Cuiabá, 1885-1946, autor de Páginas íntimas, contos regionais-1929, Aromitas, versos-1932 e Cenas de minha terra, inédito), Dom Francisco de Aquino Corrêa (Cuiabá, 1885-1956), João Nunes da Cunha (Cuiabá, 1885-1930, autor do livro inédito Selvas), Luiz Terêncio de Figueiredo (Cuiabá, 1889-1947, cujo único livro (versos), registra o historiador ter se extraviado), Ulisses Cuiabano (Cuiabá, 1891-1951, autor do inédito Grupiaras), Soter Caio de Araújo (Corumbá, 1891-1958, humorista, autor do livro Ex-tudo, de versos matemáticos-1916), Carlos de Castro Brasil (Corumbá, 1905-1976), José Barnabé de Mesquita (Cuiabá, 1892-1961, tido por Rubens de Mendonça, como o “mais profícuo escritor mato-grossense”(MENDONÇA, 1970, p. 151) , com as obras Poesias-1919, Terra do berço- poesias, 1927, A cavalhada-contos-1928, Epopeia mato-grossense- poesias, 1930, Espelho de almas- contos, prêmio ABL-1932, Piedade, romance-1937, Três poemas da saudade, poemas-1943, Escada de Jacó, sonetos-1945, No tempo da cadeirinha, contos regionais-1946; Poemas do Guaporé, poemas-1949 e Imagem de Jaci- inédito), José Antônio da Costa (Paraíba, 1893 - 1962, poeta repentista), Maria de Arruda Müller (Cuiabá, 1898, poetisa fundadora do Grêmio Literário Júlia Lopes), José Raul Vilá, (Ponta-Porã, 1899-1956, autor de Rondônia, poema-1918), Jercy Jacob, pseudônimo “João Jacó” (mineiro, 1899-1968, autor de Sombras do além- poemeto; Frei André- poemeto; Musa discreta- poesia; 1926; Missal do sonho, poesia-1948; Rimas pagãs, soneto e Sinfonia da alma, -sonetos, 1961).

No rol dos simbolistas, Rubens de Mendonça cita Pedro Medeiros, (Corumbá, 1891 - 1943, no dizer do historiador, “um dos melhores poetas mato-grossenses”(MENDONÇA, 1970, p. 163) , autor de 13 de junho- poema e Poesias, crônicas e comentários), Franklin Cassiano da Silva (Corumbá 1891-1969) e Leônidas Antero de Matos (Cuiabá, 1894-1936), todos de pouca produção .

No que respeita à estética do século XX, o historiador caracteriza como pré-modernos todos os autores surgidos no período de 1900 a 1920 (MENDONÇA, 1970, p. 71), dentre os quais Manoel Cavalcanti Proença, (Cuiabá, 1905- 1966), tido por Rubens de Mendonça como “o único escritor mato-grossense que tinha condições para entrar para a Academia Brasileira de Letras”(MENDONÇA, 1970, p. 173) e Hélio Serejo (Nioaque, 1912), autor de mais de três dezenas de obras, dentre as quais Zé Fornalha, Carreteiro de minha terra e Mãe preta. Figuram ainda como pré-modernos os autores Clodoaldo D’Alincourt Sabo de Oliveira, Gabriel Vandoni de Barros, Carlos Vandoni de Barros e Jari Gomes.

No Modernismo, Rubens de Mendonça situa, dentre outros, Lobivar Matos (Corumbá, 1914-1947); João Alípio de Almeida Serra (Cuiabá, 1914 - 1934), Henrique Rodrigues do Vale (Corumbá 1915), Rubens de Castro (Bahia, 1950 ), Rubens de Mendonça (Cuiabá, 1915-1983), Gervásio Leite (Cuiabá, 1916-1990), Manoel de Barros (Corumbá, 1916), Euricles Mota (Ceará, 1917-1968), Corsíndio Monteiro da Silva (Cuiabá, 1918), Renato Baéz (Porto Murtinho, 1920), João Antônio Neto (Couto Magalhães, GO, 1920), Pe. Wanir Delfino Cézar (Cuiabá, 1922-1972), Newtom Alfredo de Aguiar (Cuiabá- 1923), Tertuliano Amarilha (Campanário, 1924), Francisco Leal de Queiroz (Paranaíba, 1927),Wlademir Dias Pino (Cuiabá, 1927),Vera Randazzo (Caxias do Sul, 1927), Adauto de Alencar (Assarê, 1931), Amália Verlangiere (Cuiabá, 1930) e Ronaldo de Arruda Castro (Cuiabá, 1941).

Na classificação de Lenine Póvoas, são relacionados como românticos os autores: Antônio Cláudio Soido, Antônio Augusto, Ramiro de Carvalho, Antônio Gonçalves de Carvalho, Amâncio Pulchérico de França, José Thomaz de Almeida Serra. Sob o item “A poesia satírica, épica, parnasiana e simbolista”, L. Póvoas cita os escritores Pedro Trouy, Frederico Augusto Prado de Oliveira, Antônio Tolentino de Almeida, Fábio Monteiro de Lima e Indalécio Leite Proença, dos quais destaca Antônio Tolentino de Almeida, autor de Ilusões doiradas (1910), A índia Rosa (1910), Mil vezes salve (1929), A retirada da laguna (1939), Romeiros do ideal (1937) e Indalécio Leite Proença, que, apesar de contar “com farta colaboração nos órgãos da imprensa”(PÓVOAS, 1982, p. 85), editou, sob pseudônimo, apenas um livro, Sátiras anônimas, criticando o governo de Dom Aquino. Por sua veia satírica, o historiador o denomina (assim como a Frederico Prado de Oliveira) o Gregório de Matos das terras mato-grossenses ”(PÓVOAS, 1982, p. 86).

Como precursor do Modernismo, Lenine Póvoas aponta o grupo de poetas corumbaense, do qual destaca Carlos Vandoni de Barros,que teria sido, segundo o historiador, o primeiro a escrever versos modernistas no Estado”(PÓVOAS, 1982, p. 99). A seguir, Lenine Póvoas relaciona os autores que contribuíram para a revista Pindorama: Gervásio Leite, Rubens de Mendonça, Euricles Motta, Corsíndio Monteiro, Carmindo de Campos, Agrícola Paes de Barros, João Antônio Neto, Lobivar de Matos, Alceste de Castro e Manoel de Barros.

Como autores contemporâneos, Lenine Póvoas cita Deocleciano Martins de Oliveira, João Antônio Neto, Agenor Ferreira Leão, Newton Alfredo de Aguiar, Tertuliano Amarilha, Wlademir Dias Pino, Vera Iolanda Randazzo, Adauto de Alencar, Benedito Sant'Ana da Silva Freire, Ronaldo de Arruda Castro, Amália Verlangieri, Guilhermina de Fegueredo, Benilde Borba de Moura, Carlos Gomes de Carvalho e Padre Antônio Rodrigues Pimentel.

Como se pode constatar, merece destaque, nos dois livros expostos, o trabalho de compilação de nomes levado a termo pelos pesquisadores, considerando que muitos dos escritores arrolados não têm obra publicadas e só nos chegam ao conhecimento graças aos registros de Rubens de Mendonça e Lenine Póvoas. Entretanto a produção literária mato-grossense do período colonial e do início de nosso século não comporta, sem prejuízos para o próprio entendimento da arte literária em Mato Grosso, uma classificação tão estanque quanto a pretendida pelos historiadores citados. A verdade é que conviveram, em nosso século, poetas de várias tendências (muitas anacrônicas, outras modernas), o que acaba colocando em xeque a metodologia utilizada por Rubens de Mendonça e Lenine Póvoas, exigindo uma revisão historiográfica atualizada de toda a produção literária mato-grossense.

II- O teatro em Mato Grosso-séculos XVIII e XIX

A história do teatro em Mato Grosso se inicia com a descoberta de ouro na região. Consta nos apontamentos dos cronistas que, em 1718, quando Mato Grosso ainda pertencia à Capitania de São Paulo (somente em 1748 foi criada a Capitania de Mato Grosso), a bandeira do paulista Antônio Pires de Campos subiu o rio a que denominou Cuiabá, à busca da Serra dos Martírios, de inigualável riqueza, que havia visto na infância, em companhia de seu pai, o também bandeirante Manuel de Campos. Todavia, não lhe sendo possível localizar a serra, pôs-se à caça do índio, havendo sido bem sucedido nessa empreita.

No ano seguinte, chega a Mato Grosso a bandeira de Pascoal Moreira Cabral à busca dos índios coxiponés localizados por Pires de Campos. Entretanto, tendo sido derrotado pelos indígenas e havendo descoberto ouro, põe-se, mesmo sem os instrumentos adequados, a minerar, utilizando para tal as mãos e improvisados instrumentos de madeira (SIQUEIRA et alii, 1990, p. 11).

No local das descobertas auríferas, funda o bandeirante, no ano de 1919, o arraial de Cuiabá. O que se segue a partir daí é uma epopeia que mistura ambição, ouro e fome. Os bandeirantes, distantes da metrópole (6 a 8 meses de viagem), passam a se descuidar da lavoura, cultivada em quantia insuficiente para atender às necessidades da mineração, advindo daí a escassez de gêneros alimentícios. A carestia se torna tão grande que, conforme registra Luiz Phillipe Pereira Leite no seu livro Vilas e fronteiras,

o milho, gênero básico daquela época, custava um alqueire, 22 mil réis, ou seja, o equivalente a 222 dias de trabalho de um homem! Vendia-se um dourado por 7 a 8 oitavas de ouro. Uma abóbora chegou a ser vendida por 15 oitavas de ouro. Lavrar a terra nessas alturas era mais lucrativo. Miguel Sutil, paulista vivo, vem e põe-se a montar uma roça. Por ironia do destino descobre a maior mina de ouro de que se tem notícia. Basta dizer que no primeiro mês, sem ferramentas, com as mãos apenas, catou mais de 400 arroubas de ouro! A caminho de Cuiabá, quantas monções pereceram! Quanta gente morreu! Quanta miséria em Cuiabá! Morrer de fome tornou-se coisa banal. Para se ter uma ideia, conta-se que um pai chegou de trocar o filho por um peixe - o pacu (LEITE,s.d, p. 50).


Além da fome, agravavam a situação de penúria dos pioneiros as precárias condições de habitação e as doenças, mais especialmente a malária. Se não bastasse, ainda enfrentavam as constantes investidas dos paiaguás, que, além de destruir monções, protagonizavam verdadeiras carnificinas nas águas do Rio Paraguai.

Isto não suficiente, a presença do Governador General de São Paulo Rodrigo César de Menezes no arraial, no período de 1726 a 1728, contribuiu para aumentar os sofrimentos dos mineradores, instituindo uma política fiscal inclemente e insensível às mazelas da população mineradora. Sua política fiscal foi tão severa que precipitou a decadência da mineração em Cuiabá, ocasionando a debandada de muitos dos moradores da vila.

É nesse cenário que têm lugar as primeiras representações teatrais em Cuiabá, marcando o início de uma prática cultural que se estenderá até os fins do século XIX, tendo sido, nos séculos XVIII e XIX, a grande expressão artística do mato-grossense, presente sobretudo em festividades públicas, exercendo considerável influência no desenvolvimento cultural do Estado naquela época.

Trazido pelos portugueses que aqui aportaram provenientes, em sua maioria, do Minho e Trás-os-Montes, áreas mais desenvolvidas e de melhor nível cultural do País, o teatro surgiu em Mato Grosso muito antes da fundação da Capitania, vale dizer, “em precárias condições e insipientes condições sociais” (PÓVOAS, 1982, p. 34). Não obstante, floresceu a tal ponto, que Mato Grosso foi a Capitania que mais se destacou nessa atividade em todo o Brasil colônia. Registra Carlos Moura que

no período de 1729 até o último ano do século XVIII são documentadas apresentações de pelo menos 80 peças na Capitania. Basta comparar este total de representações registradas por Galante de Souza para todo o século XVIII em todos as restantes Capitanias: menos de cinqüenta. (MOURA, 1976, p. 26).


Mas por que o teatro teria proliferado tanto em Mato Grosso? Segundo anotações de Carlos Francisco Moura, a colonização de Mato Grosso, sustentada, em princípio, na mineração, deu origem a uma superpopulação urbana (MOURA, 1976, p. 26). Ilustrando esse quadro, relata-nos Aroldo de Azevedo, Cuiabá contava, na segunda metade do século XVIII, mais de 10.000 habitantes,afirmando-se então como a 4ª cidade mais populosa do País, após Salvador, Rio de Janeiro e Vila Rica (MOURA, 1976, p. 26). Essa densidade populacional e as atividades de mineração teriam favorecido o desenvolvimento de uma cultura mais rural do que urbana, num processo inverso ao verificado na maioria das capitanias brasileiras.

As demais capitanias, registra Francisco Moura, sendo caracterizadas pela austeridade rural, contabilizaram poucas festividades ao longo do ano e essas eram sempre de natureza religiosa. Assim, essas capitanias, especialmente as litorâneas, se mostraram arredias ao teatro novidadeiro da época até mesmo porque esse teatro criticava os costumes rurais do século XVIII. Nesse contexto, temos explicado o motivo pelo qual as demais capitanias brasileiras rejeitavam as peças contemporâneas e privilegiavam as que remontavam de 12 séculos anteriores (MOURA, 1976, p. 31).

Em Mato Grosso os costumes eram outros: com uma população numerosa e bastante dada a festas, foi fácil para a Capitania a absorção do teatro do século XVIII, altamente crítico dos valores rurais. Por outro lado, o enriquecimento dos mineradores atraía, conforme registra Carlos F. Moura, os artistas da Metrópole, o que fertilizava ainda mais o ambiente já propício ao teatro na região, de modo que, nessa Capitania, mesmo não se constatando a produção de textos, as representações se multiplicaram tanto que leva Carlos F. Moura a afirmar que “nenhuma capitania aderiu de forma tão total ao teatro. Em nenhuma ele teve tanta importância social e cultural” (MOURA, 1976, p. 33).

De acordo com Francisco A. Ferreira Mendes (1982, p. 10) , desde 1727, quando o arraial é elevado a Vila Real do Sr. Bom Jesus, o mato-grossense já cultivava o hábito de se deleitar com representações públicas e costumava festejar a chegada de governadores, ouvidores e Juízes de Fora a Cuiabá com manifestações de caráter público. Ainda na década de 20, registra Alcides Moura Lott que, por oportunidade da chegada da imagem do Senhor Bom Jesus a Cuiabá, foram representadas duas comédias (LOTT, 1987, p. 31-2) .

Em 04/12/1758, quando da chegada de Dr. Diogo de Toledo Ordonhes, Juiz de Fora da Comarca, a Cuiabá, registra a crônica da época que o cuiabano festejou vários dias, com representação, ao ar livre, de dramas e comédias em que atuaram pessoas da alta sociedade da vila (MENDES, 1982, p. 10). Do mesmo modo, em 1763, na época do nascimento do neto do rei D. José, representaram-se duas comédias, numa festividade que incluiu óperas, danças, cavalhadas e fogos de artifícios (PÓVOAS, 1982, p. 34).

Em 1769, por ocasião da visita do Capitão General Luís Pinto de Sousa Coutinho à Vila da Santíssima Trindade (antiga Cuiabá), foram realizadas várias festividades, incluindo cinco comédias e duas óperas. Terminada a cerimônia religiosa, segundo informações de Joaquim Siqueira, citado por Corrêa Filho (1994, p. 641),

passaram a fazer-lhe outros muitos festejos, como foram três tardes de cavalhadas em que correram as pessoas da primeira nobreza da terra, cinco comédias e duas óperas, que tudo se representou em tablado na rua, além de outras danças e folguedos, que levavam muitos dia.


No ano de 1772, quando da chegada do Capitão-General Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres a Cuiabá, este fora

recebido na entrada da vila pela Câmara, que o esperava em uma casa ricamente ornada que para este fim se armou em paragem e rua chamada 'A Mandioca', e daí conduzido debaixo do pátio ao Te Deum Laudamus, na Matriz"(SIQUEIRA, citado por CORRÊA FILHO, 1994, P. 641).


Os registros mostram também que

houve vários festejos de óperas e comédias em tablado público, além de danças, bailes e outros divertimentos que duraram por muitos dias, sendo em todos geral o contentamento. (SIQUEIRA, citado por CORRÊA FILHO, 1994, p. 641).


Em 1779, oportunidade da inauguração da Matriz da Freguesia de Sant’Ana do Sacramento, houve ruidosos festejos em Cuiabá. As festividades incluíram uma missa, uma procissão conduzindo as imagens de Santo Inácio de Loiola e São Francisco Xavier da palhoça primitiva para a nova Igreja (a 9 léguas de distância), toques de sinos, trompas, clarins, caixas de guerra e outros instrumentos, bem como tiro de roqueiras. Na Chapada, celebrou-se uma missa, encerrando os atos religiosos e, logo após, deu-se início aos festejos profanos, que incluíam uma cavalhada e “outros festins da representação” (CORRÊA FILHO, 1994, P. 642). As crônicas da época não anotaram, contudo, os nomes das peças levadas à cena naquela data.

Em 1785, nos relata Freitas Barros, foram representadas em Casalvasco, povoação próxima a Vila Bela, durante os festejos em homenagem a Nossa Senhora da Esperança, duas comédias, bem como a ópera O alecrim e a manjerona, peça do brasileiro Antônio José da Silva, congnominado “O Judeu”e que veio a se tornar a mais importante figura do teatro português no século XVIII (PÓVOAS, 1982, p. 35) .

Desde a descoberta do ouro de Cuiabá temos notícias de atividades teatrais em Mato Grosso, mas foi no governo de Luís de Albuquerque (1772/1789), áurea época de Vila Bela, que o teatro teve maior força na Capitania, registrando-se representações de peças pelo menos duas vezes por ano (PÓVOAS, 1982, p. 35). E foi tão significativo o cultivo do teatro nesse período que o fato chamou a atenção de Gilberto Freire que, sobre o governo de Luís Albuquerque afirma:

Outro característico, porém, deu sempre outra espécie de grandeza às festas a que o governador habituou a gente de Vila Bela nos seus dezessete anos de governo quase monárquico: a representação de óperas e comédias, o recitativo de poesias, as danças, os banquetes. Na comemoração de Santo Antônio, no ano de 1781, houve quatro óperas muito bem executadas (em PÓVOAS, 1982, p. 36).


Embora tenha alcançado o apogeu no Governo de Luiz de Albuquerque, a verdade é que as atividades teatrais continuaram a marcar presença na vida sócio-cultural de Mato Grosso por todo o período colonial. Registram as crônicas que, em 1790, por época do aniversário do ouvidor de Cuiabá, Dr. Diogo de Toledo Lara Ordonhes, foram representadas no período de 09/08 a 11/09 treze peças, entre comédias e tragédias e ainda quatro entremezes, cujos nomes não figuram no programa. As comemorações tiveram início com a celebração de uma missa, no dia 06/08, tendo sido realizada na noite desse mesmo dia o primeiro baile das festividades. No dia seguinte, foi realizado mais um baile, tendo sido o dia 08/08 reservado para as cavalhadas e para as contradanças (à noite). A semana seguinte foi reservada às representações teatrais, alternando-se as comédias e entremezes com as tragédias, bailes e cavalhadas. Dentre as peças levadas à cena, temos Aspázia na Síria, Irene perseguida e triunfante, Saloio cidadão, Zenóbia do Oriente, Dona Inês de Castro, Amor e obrigação, Conde de Alarcos, Tamerlão Zaíra, O tutor enamorado, Ésio em Roma, Focas Sganarelos. (PÓVOAS, 1982, p. 36).

Nessa época, segundo os registros dos cronistas, nenhuma mulher fazia par com os homens em público. Assim os papéis femininos eram desempenhados por indivíduos do sexo masculino com trajes femininos (CORRÊA FILHO, 1994, p. 643-645).

Em 1796, nos informa o historiador Firmo José Rodrigues, foram realizados festejos com a representação de mais seis comédias (PÓVOAS, 1982, p. 36-37), no último evento envolvendo teatro registrado no século XVIII.

O século XIX continua sendo palco do desenvolvimento do teatro em Mato Grosso. Como no século anterior, as atividades teatrais continuam vinculadas às festividades públicas e aos acontecimentos políticos e já se aceita a participação de mulheres no elenco. Consta que, em 1800, oportunidade em que o Capitão General Caetano Pinto retornou a Cuiabá, foram representadas duas óperas (PÓVOAS, 1982, p. 37). Em 1807, por ocasião da visita do oitavo Capitão-General, João Carlos Augusto d’Orynhausen Gravenburg, houve apresentações teatrais, repetidas alguns dias depois (PÓVOAS, 1982, p. 37). A respeito desse evento, registra Francisco Mendes que o Juiz de Fora Joaquim da Costa Siqueira ofereceu ao visitante um pomposo carro iluminado, com atores representando os deuses olímpicos, que, por mais de dois dias, declamaram, do carro, poemas à autoridade recém-chegada (MENDES, 1982, p. 11).

Em 1808, por ocasião da chegada da Família Real ao Rio de Janeiro, a população cuiabana festejou em grande estilo, levando a efeito um programa que facultava “licença sem reserva para danças, bailes, representações e máscaras, até o dia da festa da igreja” (CORRÊA FILHO, 1994, p. 647).

Do mesmo modo, os registros de Joaquim da Costa Siqueira nos dão conta da representação, no ano de 1809, de um drama acompanhado de farsas. Em 1845, nos informa Francis Castelnau, foram encenadas, em Vila Maria (atual Cáceres), Inês de Castro e outras peças “mais ou menos interessantes” (PÓVOAS, 1982, p. 37).

A partir da segunda metade do século XIX, verifica-se em Mato Grosso o surgimento de associações teatrais. Em 1867, Joaquim Ferreira Moutinho faz referências a uma Companhia Central de acionistas, organizadas por Dr. de Lamare, com o objetivo de dotar Cuiabá de um teatro (PÓVOAS, 1982, p. 38).

Dez anos depois, conforme registra Lenine Póvoas, foi criada a “Sociedade Dramática Amor à Arte”, com 62 sócios de camarote e 98 de platéia. No primeiro espetáculo do Grupo, em julho de 1877, foram encenadas duas comédias: A torre em concurso e O novo Otelo (PÓVOAS, 1982, p. 38). Conforme afirma Francisco Mendes, o elenco era formado por membros da alta sociedade local, como Elvira Josetti, Ana Rivani, Corsina Peixoto Pitaluga, Antônio João de Souza, Eulálio Guimarães, Generoso Paes Leme de Souza Ponce, Carlos Vandoni e outros (MENDES, 1982, p. 11).

Nessa época, o elenco continua sendo de alta estirpe social e a mulher já está incorporada à representação teatral. Entretanto ainda se verificam alguns traços pitorescos. A esse respeito, Carlos Von Den Steinen, havendo assistido, em 1885, ao espetáculo Caim e Abel, encenado pela Sociedade, elogia a representação e registra, com estranhamento, a presença de um bode colocado junto à banda musical militar, na ribalta, de onde os garotos puxavam o animal pelo rabo (MENDES, 1982, p. 12). [3]

Em relação à sede do Grupo, quando foi criada a Sociedade, já havia em Cuiabá um teatro inacabado, o teatro São José, cuja construção foi iniciada em 1827. Em 1893 o Comendador Henrique José Vieira transferiu-o para a Sociedade Dramática de Amor à Arte, que o concluiu no mesmo ano. Entretanto, no ano seguinte (1894), o teatro desapareceu completamente, com o desabamento do prédio, acometido por violento furacão. Mediante o empréstimo do associado Nicola Verlangiere, o teatro, bem como o passeio público à frente do mesmo foram novamente construídos. Como a Associação não pagou a dívida contraída, Verlangiere acionou, em 1913, a Sociedade, que foi executada no mesmo ano, ocasionando assim a dissolução do mais importante grupo de incentivo ao teatro na época (LEITE, 1979, p. 85).

Outra associação teatral de importância para Mato Grosso foi a Sociedade Escola Dramática, em 1883. Fundada por Joaquim Bartolino de Proença, tinha o seu palco instalado ao ar livre, no quintal da casa do Vice-Cônsul da Itália, Sr. Vicente Orlando, e contava com um elenco formado por Antônio Petrucelli, Ciríaco de Toledo, João Barbosa de Faria e as senhorinhas Almira e Palmira de Mendonça, Leonídia Fernandes de Souza, Antônia de Figueiredo, Orsina Mamoré, Lídia Evangelista, Delmira de Figueiredo e outras da alta sociedade (MENDES, 1982, p. 12). Entretanto o Grupo durou pouco mais de três anos, vindo a se dissolver com a mudança do Vice-Cônsul (PÓVOAS, 1982, p. 39).

Merecem registro ainda a criação, em 1853, da Sociedade Recreativa União dos Militares (80 sócios), que programava e realizava bailes e encontros musicais, incluindo representação de dramas e comédias (MENDES, 1982, p. 11), e a inauguração, em 1883, da Sociedade Terpsychore Cuiabá, da qual pouco se sabe, pois teve curta duração.

Enfim, pelo que se pode constatar nos textos dos cronistas, embora não houvesse na capitania produção de peças, o teatro esteve muito presente na cultura de Mato Grosso colônia, com especial destaque para o período de 1772 a 1789, quando se registram representações anuais (MOURA, 1976, p. 45) e serviu aos governantes que tentavam, através do apoio às festividades públicas, amenizar os vários problemas, principalmente os de ordem sócio-econômica, existentes na Capitania no período colonial (MOURA, 1976, p. 37).

Dessa época ficou-nos o texto Crítica das festas, que analisa as festividades realizadas em 1790, em comemoração ao aniversário do Ouvidor de Cuiabá, Dr. Diogo de Toledo Lara Ordonhes, e considerado o primeiro documento de crítica teatral do Brasil.

A fase áurea do teatro em Mato Grosso termina com a chegada do século XX, quando essa atividade entra em franca decadência no Estado, restringindo-se ao teatro salesiano encenado nas escolas.

III - A literatura nos dois primeiros decênios do século XX

O século XX encontra uma Cuiabá ainda isolada do resto do país. Para se chegar à capital brasileira, passava-se por três países estrangeiros (Paraguai, Argentina e Uruguai), e o percurso nunca demorava menos de três meses. A comunicação à distância era bastante insipiente, servindo-se Mato Grosso apenas de um telégrafo, que funcionava muito precariamente. A principal economia do Estado era a extração da borracha, que havia se sobreposto à cana de açúcar e à pecuária, transformando-se, desde o fim do século XIX, na melhor fonte de rendas de Mato Grosso.

No campo político, Mato Grosso adentra o século XX imerso nas turbulências políticas advindas da rivalidade dos líderes Generoso Ponce e Manoel Murtinho, cujas contendas eram resolvidas, via de regra, a bala, marcando uma das fases mais sangrentas da política mato-grossense.

Mesmo depois da morte de Manoel Murtinho, a violência continua sendo um traço indissociável da política local. E assim é que, dando continuidade a uma história recheada de arbitrariedade e violência, temos, em 1916, a “Caetanada”, contenda entre o chefe do executivo, General Caetano de Albuquerque, e a direção do partido situacionista, em torno da produção erva-mateira, culminando com a intervenção do Presidente da República e a eleição de um governo neutro, representado por Dom Aquino, que assume o poder em 1917.

Enquanto, na Capital, presidente e deputados se degladiavam pelo poder, nas margens do Araguaia se desenrolava a contenda dos mineradores Morbeck e Carvalhinho, denunciando conturbações políticas também no interior do Estado.

Todos esses problemas atravancavam o progresso de Mato Grosso. Não obstante, logo no alvorecer do século, alguns indícios de modernidade já podiam ser vistos na Capital. O governo de Pedro Celestino já havia reformulado a organização escolar mato-grossense, dotando-a de métodos mais modernos. Fundou também o Palácio da Instrução, a Escola normal e a Escola Modelo, estabelecimentos de grande importância na instrução da juventude mato-grossense. Em 1909, inaugurou-se a primeira empresa de telefonia urbana e, em 1912, Cuiabá assistiu à primeira sessão de cinema mudo. No governo de Dom Aquino floresceu a intelectualidade, com a criação do Observatório Meteorológico e Sismográfico, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Centro Mato-grossense de Letras, que viria a se transformar mais tarde na Academia Mato-grossense de Letras.

No que diz respeito à atividade teatral, há que se registrar que, nos primeiros anos do século XX, o teatro passou a ser praticado unicamente pelos salesianos (PÓVOAS, 1982, p. 39), cujos primeiros representantes chegaram a Mato Grosso em fins do século XIX, no ano de 1894.

Como o teatro exercia um papel importante no sistema pedagógico de Dom Bosco, verifica-se uma considerável movimentação teatral dos alunos do Colégio Salesiano São Gonçalo, que, na primeira década desse século, representam dramas cristãos, sob a direção do Pe. José Solari e, posteriormente, do seu sucessor Pe. Luis Montuschi (MENDES, 1982, p. 12-13). Compunham o elenco do teatro salesiano de São Gonçalo: Vespasiano Barbosa Martins, Hipólito Frederico de Oliveira, Fenelon e Júlio Müller, Filogônio de Paula Corrêa, Agostinho Figueiredo, Isaac e Nilo Póvoas, Clodoaldo Amarante Cesário Prado, Aristides Osório, Generoso Ponce Filho, Antônio Luís da Costa Campios, Olegário Moreira, Agrícola Leovergildo da Silva e os irmãos Lamartine e Francisco Alexanddre Ferreira Mendes (MENDES, 1982, p. 13)

Também no colégio Santa Catarina de Sena, instituição salesiana criada em 1905, o teatro exercia um papel significativo. Registra Francisco Mendes (1982, p. 13) que, por oportunidade da criação da escola, foi exibida a comédia A cega de nascimento, de 4 atos, mantendo a instituição o hábito de realizar sessões regulares durante o ano letivo. Nessa época, os atores se incumbiam da venda dos ingressos e os compradores enviavam as suas cadeiras na véspera, sendo essas colocadas no “auditório”, conforme a ordem de remessa (MENDES, 1957-8, p. 78).

Entretanto o teatro salesiano teve curta duração em Cuiabá, pois, em 1911, com a extinção dos cursos ginasiais (que foram equiparados ao Ginásio Nacional), extinguiu-se também o teatro do Colégio São Gonçalo. As representações, a partir de então, só aconteciam em festas de encerramento de ano, seguidas de distribuição de prêmios aos alunos (MENDES, 1982, p. 13).

A verdade, entretanto, é que, muito antes da extinção do teatro salesiano, as representações já haviam desaparecido das festividades públicas. As poucas peças encenadas eram dirigidas agora a uma platéia bem mais selecionada, passando a ser um privilégio da elite. Além disso, o século XX trouxe as inovações da tecnologia audiovisual, o que desviou as atenções do público para outras fontes de lazer, como o rádio e o cinema.

Por último, há que se considerar ainda o descaso do Poder Público para com o teatro no Estado, considerando o fato de que, até 1940, o único local disponível para essa atividade era ainda o barracão coberto de zinco, sobra do teatro "Amor à Arte", onde eram realizados bailes carnavalescos, e onde também se apresentavam as companhias de teatro que, raro, vinham à Capital (MENDES, 1982, p. 14).

É verdade que, ainda na década de 20, por oportunidade do bicentenário de Mato Grosso, Franklin Cassiano da Silva e Zulmira Canavarros tentaram revitalizar o teatro em Cuiabá, com representações de peças de crítica aos costumes políticos e sociais (PÓVOAS, 1982, p. 39). Entretanto foi uma tentativa que não surtiu efeitos duradouros. Das peças representadas, muitas se perderam e não foi possível inventariar a produção de Franklin Cassiano. O que se sabe é que, segundo nos informa José Couto Vieira Pontes, o escritor escreveu várias poesias e peças teatrais. Suas peças, como Cuiabá em revista, encenada no ano de 1928, encontram-se, de acordo com o historiador, “em posição exponencial no gênero de Racine, Lope de Vega e Gil Vicente” (PONTES, 1981, p. 49) e foram sempre muito aplaudidas pelo público.

É importante afirmar, todavia, que, se o teatro minguou no Estado, isso não significa que a vida cultural de Mato Grosso tenha se esvaziado. De fato, se, nos séculos anteriores, as pessoas se juntavam em associações em torno da atividade teatral, no primeiro decênio do século XX elas se agrupam em torno das atividades literárias. Obviamente, temos notícias do surgimento de jornais literários no século XIX, mas não em tão grande número como foi possível constatar no início de nosso século, quando o interesse, principalmente dos jovens, pelos grêmios e publicações de periódicos literários, é bastante intenso, tendo sido as agremiações literárias o grande fermento da vida cultural da época, do mesmo modo que o foi o teatro nos séculos anteriores.

Assim, registra Lenine Póvoas (PONTES, 1981, p. 45-48), a criação, nas duas primeiras décadas do nosso século, do Clube Internacional de Estudos Científicos (1904), dos grêmio literários Olavo Bilac (1908), Álvares de Azevedo(1911), Júlia Lopes (1916) e Castro Alves (1925), do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso(1919) e do Centro Mato-grossense de Letras (1921), dentre outros.

No que respeita aos jornais e revistas literárias, dentre os vários surgidos nas décadas de 10 e 20, destacamos o Automatismo; O Colibri - órgão noticioso humorístico e literário; O Cruzeiro - órgão dedicado às letras, pilérico e noticioso; Escola - folha literária jovial e crítica; A Juventude - periódico literário, crítico, esportivo e noticioso; A Letra - órgão da Sociedade Literária Rui Barbosa; O Mato Grosso - revista mensal de Ciências, Letras e variedades; O Pharol - órgão literário, crítico e noticioso; A Violeta - órgão do Grêmio Literário Júlia Lopes; A Imprensa - periódico literário, crítico e noticioso e O Ferrão - critica, dá notícia e faz literatura [4]

É nessa movimentada vida cultural que surgem os primeiros grandes escritores mato-grossenses do século XX, todos caudatários da estética do século passado, dentre os quais destacamos Dom Aquino, José de Mesquita, Indalécio Proença e Arlinda Morbeck.

A poesia cristã e patriótica de Dom Aquino

Tido por Pe. Raimundo Pombo como o maior cantor das terras mato-grossenses (CRUZ, 1982, p. 82), Dom Francisco de Aquino Corrêa nasceu na Chácara Bela Vista, à margem esquerda do Rio Cuiabá, aos 02 de abril de 1885.

Mente privilegiada, já em 1915 era o bispo mais novo do mundo; em 1917, o governador mais jovem do País e o único da Igreja Católica a ocupar tão alto cargo político) e em 1926 era o primeiro (e, até agora, o único) mato-grossense a se eleger na Academia Brasileira de Letras .[6]

Fundador da Academia Mato-grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, publicou, como poeta, Odes (identificada nas citações pela letra O, seguida da paginação), em 1917, e Terra Natal (identificada nas citações pelas iniciais TN, seguida da paginação), em 1919. Em 1947, reeditou, sob o título Nova et vetera, os poemas de Odes, juntamente com textos inéditos.

Escritor de variados recursos e de uma verve retórica bastante privilegiada, sofreu influências de grandes autores, tais como Virgílio, Ovídio, Horácio, Dante, Vieira, Bernardes, Bernardim Ribeiro, Frei Luís de Sousa, Castilho, Camões (de quem sabia de cor longos trechos), Guerra Junqueira, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Euclides da Cunha, Castro Alves e Rui Barbosa (SILVA, 1984, p. 23).

Poeta de formação clássica, tinha no modelo parnasiano o seu ideal artístico. É o que nô-lo afirma o próprio Dom Aquino no discurso “O belo nas letras” (em AQUINO, 1940, Prefácio), proferido por oportunidade da criação do Centro de Cultura, aos 07 de setembro de 1921:

A beleza da forma teve, como sabeis, a sua última palavra nessa escola parnasiana da segunda metade do século findo, que, prestigiada por dois grandes insulanos dos trópicos, Leconte e Herédia, domina hoje, em boa hora, toda a literatura nacional.

Não falo, entretanto, do parnasianismo na acepção estritamente histórica que lhe cabe, de corrente poética, mas num significado mais amplo, que possa abranger também a prosa, qual se impõe em tertúlia como esta, onde brilham conjuntamente prosadores e poetas.

Nem falo, está claro, desse parnasianismo decadente, já fulminado por Euclides da Cunha, como a ‘idiotice do culto fetichista da forma’.

O parnasianismo, tal qual aqui o entendemos, nada mais significa senão a escola literária, cujo supremo ideal é a perfeição da forma. Tudo o mais é aí secundário, ou mesmo extravagante. (TN, 18)


Como se pode constatar, a perfeição formal é, para Dom Aquino, o objetivo que todo poeta deve almejar. Em sua poesia são caros e essenciais o rigor formal, o purismo lingüístico, o léxico erudito e a nobreza temática, emblemas inalienáveis do Parnasianismo.

Além disso, pelo que pudemos observar no trecho citado, percebe-se que o autor critica insistentemente os poetas e prosadores do Decadentismo, a que denomina “parnasianismo decadente”, caracterizado pela “idiotice do culto fetichista da forma”. Como se sabe, os decadentistas fizeram da arte um objeto fechado em si mesmo, cultuando um esteticismo gratuito e alheio aos problemas sociais finisseculares. A poesia de Dom Aquino, ao contrário, sela um estreito compromisso com a Pátria e com a terra mato-grossense. Além do mais, os prosadores decadentistas insistiam em cultuar o individualismo de personagens imersos em psicopatias e nevralgias, fazendo com que os seus textos assumissem uma aura pessimista,o que é repudiado por Dom Aquino (CORRÊA, 1985, p. 18). Como poeta do amor cristão e da esperança, o bispo poeta preza a beleza da forma e da matéria, entendida a primeira como “rigor formal” e a segunda como “temas nobres”, ligados à terra natal. Senão vejamos:

É que, Srs., devendo discorrer sobre a beleza da matéria nas produções literárias, de outras não sei que tanto mereçam o nosso estudo e carinho, como as belezas da nossa terra.

Nisto é que o Centro deve mostrar-se verdadeiramente mato-grossense. Lançar as bases da literatura regional, eis a grande finalidade, que deve imprimir cunho característico ao programa da sua atividade. (TN, 212)


E continua o poeta:

Contemplai a sua natureza, esta natureza que nos sorri ainda, na eclosão virginal de beleza tão encantadora, que nem o cientista mais frio pode estudá-la, sem arrebatar-se insensivelmente da atmosfera serena da observação pesquisai, enfim, as nossas lindas tradições populares. Quantas riquezas inéditas. (TN, 22-3)


Além de contemplativa, a poesia aquineana é também uma literatura bem comportada, soerguida na pureza da língua e na nobreza dos assuntos e, obviamente, de acordo com a moral vigente, conforme o seu discurso nos revela:

Bem inspirado nestes princípios, o Centro Mato-grossense de Letras se propõe a fazer uma literatura que não só respeite a moral, mas a edifique, exalte e sublime.

Nosso fim é cultivar as belas letras, que tão sugestivamente são também chamadas boas-letras.

Não queremos a literatura das pornografias, que desvirginam a pureza dos sentimentos e afrouxam a integridade dos caracteres, desencadeando, a miúde sobre a família e a sociedade, os mais tremendos infortúnios. (TN, 24)


A poesia de Dom Aquino sela, pois, o seu compromisso com a perfeição formal e os sentimentos nobres, ligados à terra e à religião. Entretanto os temas não são vistos por um olhar distanciado, imparcial, mas por um olhar subjetivo,responsável pela faceta romântica de seus textos. É o que observamos já no seu primeiro livro, Odes, em que, não obstante o rigor formal empreendido na conformação e estruturação dos poemas e do livro, este mostra-se eminentemente subjetivo, religioso e patriótico.

Odes se acha subdividido em três partes: “Rapsódias”, “Melodias” e “Psalmódias”. “Rapsódias”, lembra, conforme nos explica o autor, “o centão ou manta de retalhos” (CORRÊA, 1917, p. XXXI), em que Dom Aquino nos apresenta suas primeiras poesias, bem como algumas traduções e versos em latim, escritos datados de 1899.

“Rapsódias” se subdivide em dois blocos de poemas: “Musa em botão”, com textos esritos entre 1899 e 1904, e “Musa em ócio”, com traduções e poemas em latim.

No primeiro bloco, os textos apresentam temas basicamente religiosos e patrióticos, assumindo os emblemas da eloqüência romântica, não obstante a forma seja bastante clássica, em versos sempre perfeitamente metrificados. É o que podemos ver, por exemplo no trecho abaixo, retirado do poema “A virgem de Dom Bosco”.

Virgem! tu que é o nosso exílio

Guias qual doce funal

Sê também a estrela plácida

Do meu cispede natal!

Teus missionários robora,

Tanta descrença minora,

Traze aos fulgores da aurora

Da selva o filho brutal!


Da mocidade no cérebro

Ao gênio infunde o fulgor!

Mas, na alma ingênua conserva-lhe

O róseo e belo pudor!

Cinge de palma gloriosa

A pátria minha formosa,

Virgem querida e mimosa,

Ó mãe do cândido amor! (O,90)


O segundo bloco subdivide-se em “Versões” e “Diversões”. Na primeira subdivisão encontramos os textos “Salvete, flores martyrum”, “Fé e cepticismo” (trad. espanhol) e “A virgem Auxiliadora” (hino litúrgico). Na segunda subdivisão, temos os versos em latim escritos por Dom Aquino, na mocidade. São versos, segundo ele, “para aprender, que não para ensinar, meros exercícios escolares, versos de ocasião que, em geral, não haviam ultrapassado os âmbitos de íntimas palestras acadêmicas” (CORRÊA, 1985, p. 211), escritos entre 1905 e 1912.

Não obstante a postura racional do autor na estruturação do livro e seus poemas, a verdade é que o poeta já demonstra a sua tendência para a idealização da realidade. Ao filtrar o real através da lente transfiguradora da emoção, o poeta engrandece atos, sentimentos e aspectos culturais/geográficos da terra mato-grossense.

Terra natal, seu segundo livro, foi publicado em 1919 e acha-se subdividido organicamente em três partes: “Terra natal I - A natureza”, “Terra natal II - Os homens” e “Terra natal III - As tradições”. Nesse livro, o amor à terra, a Deus e à natureza, já presentes em Odes, se reafirma em imagens de exuberância que mitificam o Mato Grosso bravio e enobrecem o Mato Grosso civilizado, transfigurando-o e engrandecendo-o através da idealização da realidade. Como exemplo, citamos a poesia “Poconé”, em que, em versos alexandrinos, o poeta exalta a cidade de Poconé:

Sobre relvoso chão de canga cor-de-rosa,

Balisando a amplidão dos verdes pantanais,

A cidade se esboça ao longe, calma e airosa,

Como um pouso feliz de mansas garças reais.


Salve, campos em flor! rica mansão famosa

Dos Beripoconés! bravios capinzais,

Que o cervo pasta! amena estância, onde a alma goza

O idílio encantador das cenas pastoris!


Nas campinas que, além, viçam léguas e léguas,

Eis teus nédios vacuns, eis teus potrancos e éguas,

Que lá vão se perder no horizonte de anil...


E teu povo anelando empresas mais ousadas,

Expande-se no ardor das lindas cavalhadas,

Ó S. Pedro d'El-Rei! ó Poconé gentil! (TN,54)



Merece destaque ainda o poema abaixo, em que Dom Aquino canta a Cuiabá do início do século, e que acabou conferindo à capital do Estado o epíteto “Cidade Verde”:

Sob os flabelos reais de mil palmeiras,

Tão verdes, sombranceiras

E lindas como alhures não as há,

Sobre alcatifas da mais verde relva,

Em meio a verde silva,

Eis a ‘cidade verde’: Cuiabá!


Guardam-na, frente a frente, quais gigantes

Eternamente amantes,

Os seus dois morros, e tão verde são,

Que até refletem plácidos verdores

Nos lares cismadores,

Que enchem do vale a plácida mansão.


Muita vez, na amplidão do céu ridente,

Que tão macramente,

Sobre ela curva o cérulo matiz,

Passa a nuvem dos verdes periquitos,

Gárrulos e infinitos,

Qual chusma de esperanças infantis.


Passa!... e na calma do horizonte verde,

Que além no azul se perde,

Ela adormece ao ósculo fugaz

Centrando a barcarola

Infinita dos beijos e da paz. (TN,48-9)


Como foi possível constatar nos textos citados, a poesia de Dom Aquino caracteriza-se pelo perfeito casamento entre a tradição romântica e a parnasiana, não obstante o rigor formal incontestável presente em praticamente todos os seus poemas. Essa é, aliás, a faceta de sua obra que mais tem chamado a atenção de seus críticos. Assim, o professor Nilo Póvoas, citado por Cruz (1982, p. 69), afirma ser Dom Aquino um poeta subjetivista da melhor linhagem, “de um delicado lirismo lamartiniano” , tendo a religião e a natureza como principais fontes de inspiração. Do mesmo modo, o filólogo João Ribeiro, também citado por Cruz (1982, p. 77), reconhece em Dom Aquino o primeiro poeta da Igreja brasileira e pontilha na sua lira “os sentimentos e coisas nobres”, a religião, a Pátria, a mocidade, o heroísmo, a bandeira, o sacrifício, nos moldes românticos.

Dois esteios sustentam tematicamente a poesia romântica aquineana: Deus e a Natureza. Ora, como sabemos, esses são os fundamentos da poesia romântica, e é a partir desses dois pilares que Dom Aquino, assumindo uma atitude contemplativa, se afirma como o poeta que mais e melhor soube idealizar as terras mato-grossenses. Repetindo as palavras de Francisco F. Mendes,

há na inspiração de seus versos essa fibra nítida do seu ideal, do seu sentimentalismo votado ao misticismo da religião e da fé, da graça e da beleza no descrever a natureza pátria, tudo envolto na sonoridade do ritmo e na pureza da forma, a exaltar sempre sua crença nos superiores destinos da terra que amou, honrou e dignificou. (citado por Cruz, 1982, p. 70).


Considerado por Lenine Póvoas “o poeta da natureza mato-grossense”, não se conhece de fato nenhum poeta daquela época que tenha cantado tão bem as belezas naturais de sua terra natal quanto Dom Aquino. Repetindo as palavras do historiador,

Toda a pujança de nossas matas e toda a beleza de nossos pantanais; toda a poesia de nossos regatos e toda a magestade de nossos rios caudalosos, toda a magia de nossas auroras salpicadas de orvalho e toda a suavidade de nossas límpidas cascatas vive e canta nas suas estrofes, onde também vibram e palpitam os lances épicos de nossa história e as nossas mais caras tradições. Dom Aquino é o poeta da natureza mato-grossense. Ela é a sua inspiração mais fecunda, mais bela e mais constante. (PÓVOAS, 1982a, p. 37).


Mas o seu amor não se restringe apenas a Cuiabá ou à região mato-grossense. Seus poemas estão eivados de intenso patriotismo. A esse respeito, afirma Barros (1982, p. 212-213) que,

Não obstante a forma clássica do seu espírito, que abeberara nas fontes gregas e latinas, tal como desejava o poeta, enfeixara Dom Aquino Corrêa sua atividade terrena neste binômio iluminado - Deus e Pátria. E, ao seu nacionalismo, que, aliás, não atenua nele essa envolvente e meiga compreensão humana, tão peculiar à sua personalidade, hão de certamente parecer mais lindas e perfumosas as dafnes, as passifloras e as persicárias da chapada mato-grossense, do que os bintos, as anêmonas, os teredélios e os heliotrópios das vizinhanças da acrópole.


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