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Excerpt for Cavaleiros da Pedra Sagrada by , available in its entirety at Smashwords




 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marina e Marcus eram dois gêmeos que moravam na cidade de Reis de Véu. Nos fins de semana, eles costumavam ir visitar o tio em sua chácara, fora dos limites do centro urbano. Como fosse época de férias, eles ficavam na chácara muitos dias, brincando entre as árvores viçosas, cheias de frutas saborosas, e divertindo-se com os bichinhos que por lá havia. Os tios de Marina e Marcus eram João Antônio e Lúcia Maria, um casal cheio de bons sentimentos que amava seus sobrinhos como se fossem seus próprios filhos. 

Naquela tarde, os dois jovens haviam ido à praia próxima com o tio. Marina e Marcos tinham nove anos e eram muito inteligentes e aventureiros. A mãe costumava contar para eles, quando ainda eram duas criancinhas, a historinha do pássaro azul em que o casal de irmãos, Mytil e Titil, partiram em uma

maravilhosa aventura em busca do Pássaro Azul da Felicidade, guiados pela Fada Beriluna. 

Havia pouca gente na praia. João Antônio estava espichado em uma cadeira reclinável, bebendo Coca-Cola de canudo, em uma latinha. Marina e Marcus brincavam adiante na areia, construindo um castelo que teimava em ficar torto. O tio ria das crianças, divertindo-se à beça com elas. 

Terminado o curioso castelo, Mariana e Marcus foram correr pela beira da água para molhar os pés. O castelinho, como bem observara João, ficara inclinado para frente, como a Torre de Pisa, mas se mantinha firme. 

Depois de chutar a água e apanhar algumas conchinhas para escutar o barulho do mar, Marina e Marcus correram até a área proibida, que ficava atrás de uma colina. Tio João cochilava na cadeira, com a boca aberta.  - Vamos aproveitar para explorar além da colina, Marcus? – chamou Marina – Dizem que existem coisas maravilhosas por lá.  - Se o tio pegar a gente, vai ser aquela bronca... 

- Ele tá cochilando, não tá vendo? 

Marcus estava afoito para ir além da pequena colina e explorar o que existia por lá. Ele olhou para o mar e viu... viu o crepúsculo que avermelhava o horizonte, causando nas pessoas uma sensação gostosa de paz. 

- Vamos logo antes que ele acorde! 

Os dois irmãos deram-se as mãos e partiram em desabalada carreira para o montinho. Havia uma placa velha, com a madeira podre e a tinta esmaecida, que dizia: PASSAGEM PROIBIDA. Mas, não existia nenhuma cerca para impedir a passagem dos curiosos. Existia sim uma densa vegetação que impedia a entrada de qualquer pessoa... Ou melhor, impedia a entrada de quase todo mundo, mas não a entrada de Marcus e Marina, que nada temiam e estavam dispostos a enfrentar tudo para satisfazer a sua curiosidade. 

Eles meteram-se por dentro da vegetação, confundindo-se com ela e desapareceram. Eram nada menos que dez ou doze metros de plantas e moitas, de heras, cipós e samambaias que se enroscavam nos corpos das crianças como criaturas assombradas, com vida própria, que desejavam impedir a qualquer custo que elas atravessassem a passagem. 

- Por que essa passagem é proibida, Marina? 

- Parece que o mar nessa parte é mais perigoso... Tem tubarão, polvo gigante, baleia cachalote... 

- Isso é conversa do povo! 

- Dizem também que existem criaturas do além que ficam na praia, na areia, nas rochas... Parece que bichos estranhos vagam aqui pela noite...  Marcus ficou com um tiquinho de medo – só um tiquinho, nada que o impedisse de continuar seguindo a mana até o outro lado. Foi assim que ambos atravessaram a vegetação e desceram o outro lado da colina, atingindo o local proibido. 

Olhando para Marcus, Marina desatou a rir:

- Você tá coberto de folha! Parece o Monstro do Pântano! 

- E você não tá melhor do que eu! – replicou o garoto, cuspindo folhas e batendo as mãos na cabeça e no corpo para tirar as folhas e gravetos.  Eles foram caminhando, cheios de curiosidade. Naquela parte, a areia era bastante escura, fato que logo chamou a atenção das crianças. A noite vinha, pouco a pouco, estendendo seu manto negro sobre a praia. Marcus lembrou-se de que, na historinha do Pássaro Azul, Mytil e Titil visitaram a Rainha da Noite e ficou imaginado que ela estivesse observando os dois lá do alto, talvez de dentro da lua. 

De repente, eles escutaram uns gemidos... 

Eram gemidos de alma penada. Apesar de assustados, eles seguiram na direção dos gemidos, julgando que alguém estivesse precisando de ajuda. Ao contornarem uma grande pedra, viram uma mula

caída na areia, gemendo muito com uma das patas torcidas. 

- Meu Deus, Marcus! É uma mula! 

Era uma mula preta, muito grande, quase do tamanho de uma égua. O que eles não sabiam é que aquela era a Mula Sem Cabeça. Claro que não poderiam saber, pois ela ali estava com a cabeça no lugar. 

- Vocês poderiam me ajudar! Estou com uma pata torcida e, por isso, não posso andar – falou a mula como se fosse uma pessoa.  Marina e Marcus, a princípio, tomaram um susto ao ouvir a mula falar, mas logo se recobraram e acharam muito bom conversar com um animal.  - Ela fala... – comentou o menino.  - É! Que maravilha, não é Marcus? Quem sabe ela é aquela mula da história do Vô Cleto? 

Vô Cleto era o pai de tio João Antônio e da mãe das crianças, Sofia. Ele morava no sítio, criava vacas e bezerros e tinha um livro ilustrado, antigo, de capa dura, chamado Meu Livro de Histórias Bíblicas. Vô Cleto reunia os netos ao seu redor e ficava lendo as histórias daquele livro especial. Uma dessas histórias falava sobre um homem das eras passadas que fora repreendido por uma mula. 

- É mesmo, Marina! – disse Marcus, batendo palmas – Deve ser a mula de Bambalaão!  - Balaão, Marcus! O nome do profeta era Balaão! 

- É mesmo! É que eu acho esse nome estranho demais!  - Não, crianças, eu não sou a mula de Balaão! – respondeu o animal – Eu sou a Mula Sem Cabeça!  - O quê?! – perguntaram ao mesmo tempo Marina e Marcus, abraçando-se.  - É isso mesmo. Eu sou a Mula Sem Cabeça, mas não farei mal nenhum a vocês.  - Se você é a Mula Sem cabeça por que tá com a cabeça? – indagou o garoto com muita razão.  A mula soltou um zurro que era, na verdade, uma gargalhada:

- As pessoas julgam que eu não tenho cabeça, mas eu tenho. O que acontece é que, com o fogo que sai das minhas ventas, fica impossível ver minha cabeça – as pessoas só veem o fogaréu e pensam que eu não tenho cabeça. Eu solto fogo pela noite para iluminar meu caminho e assustar ainda mais as pessoas. 

E, para provar o que dissera, ela expeliu muito fogo das narinas. As chamas elevaram-se alto e cobriram completamente a cabeça da mula. 

- Viram? 

As crianças começaram a rir, divertidas com aquilo. Nesse momento, o celular de Marina tocou:

- Xiii! É a tia! 

Ela atendeu ao telefone:

- Oi, tia! 

- Onde é que vocês estão? Cadê o João? Venham para casa que vamos jantar mais cedo, pois hoje vou à missa! 

- Tá legal, tia! Já estamos indo! 

Os meninos se entreolharam e olharam para a mula.  - Antes de irem, vocês podem me dar uma força – disse ela – Estão vendo aquela tábua ali na frente, aquele pedaço de pau?  Marcus correu para pegá-lo. 

- Agora, apanhem um pouco de cipó e amarrem esse pedaço de madeira na minha perna doente – servirá como tala. 

Marcus correu até a colina, pegou cipó e voltou para ajudar Marina, que estava agachada junto da mula, ajeitando a tala. Fizeram um suporte na perna do animal de modo que ele conseguiu se levantar e caminhar, ainda que mancando.  - Por que não levamos ela pra chácara? – sugeriu Marcus – Podemos ficar cuidando dela.  - Ora, a tia não ia gostar de criar uma Mula Sem Cabeça. 

- Mas, ela não precisa saber... 

Marina estava começando a gostar da ideia, mas não sabia onde eles poderiam esconder a mula.  - No antigo chiqueiro! – gritou o menino, todo satisfeito.  - É mesmo! – concordou marina, abrindo um grande sorriso em sua cara redonda.  Havia, na chácara, um velho chiqueiro fechado, todo de pedra, que fora usado para criar porcos e bodes, mas agora estava abandonado. Como tinha porta e cobertura, era o local ideal para esconder um animal exótico, como a Mula Sem Cabeça Que Tinha Cabeça.  - Vamos fazer assim – disse o menino – Você volta pra onde está o tio João e vai com ele pra casa. 

Diga que eu já fui, junto com o Léo. Eu vou com a mula, entro pelo fundo da chácara e coloco a mulinha lá no chiqueiro. A gente fica cuidando dela até ela ficar boinha. 

O animal ficou muito agradecido pela solidariedade dos meninos. O que foi combinado foi feito. 

Marina retornou pela colina, atravessou a passagem proibida, cheia de cipós e heras, acordou o tio João, que roncava alto deitado na cadeira e voltaram para a chácara. Ela disse que Marcus tinha ido com o Léo, um garoto que morava nas proximidades da chácara e só vivia na praia, tomando banho de mar. 

O que Marina não percebeu foi que o castelinho que ela e o irmão construíram permanecia em pé e estava ocupado por um siri. 

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O plano dos Irmãos Brasilis deu certo. Marcus entrou pelo portão de ferro que havia nos fundos da chácara. Primeiro, ele escalou o portão e pulou para dentro; então, abriu o cadeado que fechava o portão e deu passagem à mula. 

Já era noitinha e a mula soltava fogo pelas ventas para iluminar o caminho. De fato, os dois tomaram o caminho mais deserto da praia até a chácara – um caminho sem postes de iluminação, nem casas, nem movimento de veículos. Como fosse noite de lua nova, tudo estava escuro mesmo. A única coisa que encontraram foi um vira-lata que latiu para a mula e os seguiu por um bom pedaço, indo embora depois. 

Diante do chiqueiro, Marcus empurrou a porta de madeira, que rangeu assombrosamente, dando passagem a ele e à sua nova amiga. Era um grande espaço quadrado, com uns doze metros de largura e comprimento, dividido por seções menores, onde se alojavam os porcos. Mas, essas seções praticamente já não existiam, pois as muretas estavam arruinadas, espalhadas pelo piso. Quanto à altura, o chiqueiro devia ter uns dois metros. 

A Mula Sem Cabeça gostou bastante do lugar, muito sossegado e confortável para qualquer animal. 

O próprio Marcus e sua irmã, enquanto brincavam, haviam dormido várias vezes ali, esparramados no chão. Os tios quase nunca iam ao chiqueiro. Foi nesse esconderijo que a mula ficou durante uma semana, cuidada pelo casal de irmãos, bem alimentada e com direito a um grosso cobertor de lã, bastante felpudo. 

João e Lúcia nunca imaginariam que, no seu antigo chiqueiro, estava uma Mula Sem Cabeça doente. 

A mula contou sua história aos meninos. Como todos sabem, a Mula Sem Cabeça é uma mulher amaldiçoada que, durante a noite, vira mula que sai pelo mundo soltando fogo pelas ventas, assustando e atropelando os viajantes. No caso dessa mula, certa noite em que corria pela noite afora, ela encontrou uma passagem que ia dar no Inferno. Sem saber que o caminho levava às profundezas, a mula desceu e desceu, desceu e desceu até chegar à Mansão dos Condenados. Ficou presa ali na forma de mula e nunca mais retomou sua forma humana. Certa vez, os demônios planejaram uma invasão a uma cidade e a Mula Sem Cabeça, aproveitando a oportunidade, voltou à superfície e permaneceu na Terra, mas não conseguiu mais retomar a forma de mulher.  - Vixi! – espantou-se Marcus – Então, você agora é mula pra sempre?  - Não sei, mas parece que sim! 

Na noite do sétimo dia, a assombração, agradecendo a ajuda dos meninos, partiu em rápida galopada, mergulhando nas trevas e foi-se embora.  - Ainda nos veremos! – dissera ela antes de sair da chácara.  - Sentiremos saudades! – falou Marina, chorando, pois já considerava a Mula Sem Cabeça como um animal de estimação.  Depois desse episódio sobrenatural, Marcus e Marina voltaram à sua casa em Véu de Reis, ansiosos para contar aos colegas que haviam ajudado uma Mula Sem Cabeça de verdade. 

- Será que eles vão acreditar, Marina? 

- Não sei. Talvez acreditem. 

- Tem gente que diz que Mula Sem Cabeça não existe! 

- E não existe mesmo! Ela não tem uma cabeça? Só que o fogo cobre a cabeça e a gente não vê! 

- Não sei como ela aguenta aquele fogaréu em cima dela, queimando tudo...  - Ela é uma criatura do além, Marcus, uma mula sobrenatural – as criaturas assombradas são diferentes.  As crianças não esqueciam a aventura com a mula e sentiram-se tentados a participar de uma nova aventura. Na cidade, existia uma caverna misteriosa, que ficava depois do convento dos monges franciscanos. Era conhecida como a Caverna Secreta e todos tinham medo dela. Nem os monges entravam lá, dizendo que, além daquela gruta, existia um mundo diferente.  - E se a gente fosse até à Caverna Secreta? – sugeriu Marina.  - Seria bom demais... Mas, a gente tinha que ir escondido, né? 

- Mas, isso é muito fácil. 

E foi fácil mesmo. Para os Irmãos Brasilis não havia nada difícil. Certo dia, eles foram até o convento, que era muito grande. A Caverna Secreta ficava por trás dele, mas não era preciso entrar no prédio para ter acesso a ela. Era necessário dar a volta ao convento e descer uma longa ladeira. A poucos metros dessa ladeira, ficava a misteriosa gruta com sua entrada escura, tal como uma grande boca, pronta para devorar os curiosos.  - Vai entrar mesmo, Marina? – perguntou Marcus, um pouco assustado.  - Ora, e tivemos todo esse trabalho pra chegarmos aqui e voltarmos? Vamos lá! 

E eles foram. 

Penetraram na Caverna Secreta. Tinham se preparado para explorá-la, levando lanternas dentro da bolsa de Marina. A menina ia à frente, iluminando o caminho com uma das lanternas. Grudado a ela, ia Marcus. A gruta era escura mesmo e muito comprida, cheia de volteios, de subidas e descidas, toda irregular. Havia morcegos, corujas, escorpiões e cobras

cegas. Não dava para ver o seu final. Marcus esperava, a cada momento, que algum monstro saltasse sobre eles, atacando-os. 

E foi o que aconteceu... 

Depois de uma longa caminhada, eles avistaram o final da Caverna Secreta. Havia muito verde do outro lado. Parecia um lugar lindo! 

Mariana e Marcus apressaram os passos, loucos para chegar ao outro lado. 

Sim, o local era maravilhoso! 

Do outro lado da caverna, ficava o Mundo Floresta Caiçara, cheio de planícies férteis e belas colinas cobertas por abundante vegetação, por plantas e árvores viçosas, muito Floresta Caiçaras, e por flores coloridas e exóticas que e 

spalhavam um perfume maravilhoso. 

As crianças estavam pasmas, paradas, contemplando a beleza do lugar quando alguma coisa saltou sobre elas. 

Era um Atigrado!   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 













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CAPÍTULO 2

 

 

 

 

 

 


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